sexta-feira, 10 de novembro de 2017

UM BELO DOMINGO – Jorge Semprun


Que obra magistral!!!

Mas de que modo esta obra é magistral? Ao tratar de temas cruciais com grande engenho e arte, ao ensinar e instruir, mas sobretudo ao fazer pensar, ao propor muito mais questionamentos que respostas prontas. Ao inspirar e emocionar, em suma, com um exemplo eloquente do grande poder da Literatura!

Certamente vou continuar com esse livro em minha mente, sendo digerido e repensado, ainda por um bom tempo. Ainda estou sob o impacto inicial da leitura, mas teria tanto a falar a respeito que prefiro reduzir minha resenha ao essencial.

Apesar de estar qualificado como um romance, o livro possui muito de relato autobiográfico, entremeado por reflexões filosóficas e políticas. Mas não deixa de ser também um Romance, com “R” maiúsculo, pois se propõe à elevada e nobre meta de “representar a totalidade da vida”.

Literariamente, a obra segue a senda das “narrativas enigmáticas”: trata-se do relato minucioso de um único dia, no caso um domingo passado no campo de concentração nazista de Buchenwald. E a rememoração desse domingo vai sendo intercalada por outros episódios passados e futuros na vida do Narrador, de forma a compor um complexo mosaico que, aos poucos, vai adquirindo formas e cores definidas na mente no leitor.

Amo muito as narrativas estruturadas dessa forma, que se propõem a contar um único dia e, a partir desse dia, falar da vida toda e do mundo inteiro! Desde o brilhante e monstruoso Ulisses de James Joyce até o mais feminino (e inteligente) Mrs Dalloway de Virginia Woolf, tanto que o primeiro livro que escrevi, O Sincronicídio, segue a mesma e mística cartilha. Então esse foi mais um motivo para eu achar Um Belo Domingo uma obra incrível.

Dito isso, ficou patente na leitura a sensação de que textos desse quilate são raramente produzidos hoje em dia (o livro foi publicado originalmente em 1980). Ficou muito forte a impressão de que muito poucas pessoas atualmente apreciariam esse livro. Não somente pela estrutura narrativa, que exige esforço intelectual e cumplicidade por parte do leitor, mas principalmente pelas reflexões suscitadas pela leitura.

Pois o livro traça um paralelo entre a opressão do Sistema e a busca individual por autonomia, felicidade e sentido. O Sistema, no caso, é bipartido: de um lado o capitalismo, que de forma deformada e grotesca gera o campo de concentração nazista, e do outro o comunismo, que de forma igualmente monstruosa acaba parindo o gulag stalinista. Ao menos no cenário brasileiro, que parece irremediavelmente dividido entre mortadelas e coxinhas (para alegria e gozo geral dos donos da Padaria...), esse tipo de reflexão soa como aberrante e fundamentalmente incompreensível para a grande maioria.

Esse magnífico livro “só para loucos, só para raros” termina de forma triste e desesperançada, ainda que belamente. E ainda mais solitário, louco e raro eu me senti ao divisar uma renovada esperança para além do horizonte retratado pelo autor. Pois não existe futuro e nem felicidade em nenhum sistema político, seja ele qual for. Isso ficou ainda mais claro. De onde então, vem a esperança?

É que a verdadeira e definitiva revolução humana será uma revolução de consciência, uma revolução da Espiritualidade, que não acontecerá no embate sangrento de exércitos, nem no igualmente violento confronto de ideologias, e sim no mais íntimo de cada ser humano. E daí minha grande alegria e esperança: mesmo sendo ainda invisível e aparentemente impossível, a vitória é inevitável!

Então vamos a ela, a essa bela e irreversível vitória. Que assim seja!



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MANIFESTO – Mensageiros do Vento

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O CÃO DE TERRACOTA – Andrea Camilleri


Mais uma exitosa aventura do comissário Salvo Montalbano, personagem criado por Andrea Camilleri e que é, provavelmente, o maior nome da literatura policial na Itália atualmente. Para mim, que já li do mesmo autor “A Forma da Água” e “A Paciência da Aranha”, foi muito instrutivo observar as sutis mudanças na prosa de Camilleri à medida que seu detetive foi fazendo mais e mais sucesso.

De modo geral, a impressão que tive foi que a narrativa foi ficando menos intuitiva e espontânea e mais metódica e sistemática, com o autor se empenhando em atender, sob demanda, aos possíveis motivos de êxito dos livros anteriores. Assim é que aqui estão as principais boas características de uma história com Salvo Montalbano (a julgar pelas três que li):

* A ambiguidade moral do protagonista, capaz de ser canalha e vil com os canalhas, mas obrigado a ser justo e correto com os bons.

* A alternância de cenas violentas, no estilo “máfia italiana”, com investigações mais sutis sobre a natureza humana.

* Um toque moderado de romance e sensualidade, proporcionado pela fiel companheira Lívia e por outras beldades, que insistem em perseguir o pobre comissário.

* Suculentas descrições da rica culinária siciliana.

Isso tudo está em “O Cão de Terracota”, mas tive a impressão de que esses elementos são apresentados de forma mais estudada e intencional, como se o autor estivesse tentando repetir uma fórmula de sucesso descoberta inicialmente meio que por “acaso”.

Senti também que o sucesso afetou Camilleri, e para pior, em suas digressões sobre livros de outros autores. Isso me incomodou porque são evidentes intrusões na trama, que acabam fazendo o leitor sair um pouco da história ao perceber que o autor está “mandando um recado” para alguém. Isso acontece tanto quando ele elogia o texto de um autor contemporâneo, quanto ao dar uma sacaneada em outro, fazendo o livro dele cair na sarjeta logo depois de ser comprado por Montalbano, para em seguida ter um caramujo esmagado (!!!) contra sua capa. É o tipo de cena bizarra que meio que “arranca a cortina do palco” e torna o leitor consciente de que está assistindo a um espetáculo, justamente por ficar imaginando que catzo estava passando pela cabeça do escritor ao imaginar aquilo.


Mas sobretudo não gostei da débil tentativa de zoar e desmerecer Umberto Eco. Melhor teria feito o autor suprimindo toda e qualquer referência, chistosa ou não, ao grande Eco, pois assim teria evitado, na mente do leitor, essa por demais desfavorável comparação entre os dois escritores italianos.


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A MARCA – Fabio Shiva

Um intrigante conto de mistério e assassinato que tem como pano de fundo a saga dos Anunnaki... “A MARCA” foi originalmente publicada em “REDRUM – Contos de Crime e Morte” (Caligo Editora, 2014), sendo um dos sete contos selecionados para a antologia. Em 2016 a história foi republicada no livro duplo de contos “Labirinto Circular / Isso Tudo É Muito Raro”, de Fabio Shiva (Cogito Editora). E agora está disponível aqui. Boa leitura!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5825862
 


domingo, 15 de outubro de 2017

BHAGAVAD GITA – A Mensagem do Mestre


Que gratidão poder mais uma vez ouvir a sublime canção do Bem-aventurado Senhor! Creio que esta é a oitava vez na presente encarnação que tenho o privilégio de acompanhar o diálogo entre Krishna e Arjuna, posicionados entre os dois exércitos desejosos de lutar no campo de Kurukshetra!

Gostei muito desta versão da Editora Pensamento, com a prestimosa tradução de Francisco Valdomiro Lorenz. Considero esta edição muito apropriada para um contato inicial com o Gita, pois a tradução visa a essência dos ensinamentos, sendo muito feliz nessa admirável tarefa.

O Bhagavad Gita, ou “Canção do Senhor”, é a parte central do inigualável épico Mahabharata, sobre o qual se diz: “O que quer que seja essa vida, o que quer que a vida seja, está no Mahabharata”!

A cada nova leitura do Gita, descubro novos e preciosos ensinamentos e sinto, como o Rei Davi, grande poeta bíblico, que a minha alma se refrigera e que meu cálice transborda... Principalmente por perceber mais e mais que é uma e a mesma a Verdade ensinada pelos grandes mestres como Jesus Cristo e Bhagavan Krishna. Quem não enxerga ainda essa simples evidência, ainda não entendeu nada.

Fiquei pensando em uma maneira de resumir o Gita para alguém que ainda não o conhece. Uma versão moderna da conversa entre Krishna e Arjuna poderia ser considerada a já clássica cena do filme “Matrix”, onde Morpheus explica a Neo a natureza da ilusão que até então ele acreditava ser a realidade. E então Neo vai aprendendo como superar e transcender a Matrix, até poder dizer, como Arjuna diz a Krishna:

“Desvanecida está a minha ilusão. Por Tua graça adquiri o conhecimento, ó imutável Senhor. Estou decidido. Dissiparam-se as minhas dúvidas. Agirei segundo Tua palavra.”
(Bhagavad Gita: XVIII:73)

Que assim seja!


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MANIFESTO – Mensageiros do Vento

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
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sábado, 14 de outubro de 2017

DO QUE EU FALO QUANDO EU FALO DE CORRIDA – Haruki Murakami


Ao ler esse excelente livro, uma frase que ouvi em algum lugar ficou martelando na minha cabeça: “Seja o que for que você faça, tem sempre um japonês se esforçando para fazer melhor, menor e mais rápido!

Essa frase jocosa, que expressa muito do espírito japonês do “Ganbatte” (algo como “faça o seu melhor”), também tem muito a ver com a vida e a obra do incrível sensei Haruki Murakami.

Primeiro, ele decide abrir um bar de jazz em Tóquio, mesmo sem ter tido nenhuma experiência com o comércio. O bar se torna um sucesso, então Murakami decide vendê-lo, para se dedicar à sua nova carreira: escritor profissional. Isso porque ele escreveu um romance para participar de um concurso literário, enviou os originais de sua primeira obra (sem tirar cópias!) para o concurso, foi premiado, publicado, virou um autor de sucesso, escreveu várias outras obras traduzidas no mundo inteiro. Enquanto isso, nas horas vagas, Murakami se dedica a participar de maratonas e competições de triatlo ao redor do globo e até mesmo, certa vez, de uma ultramaratona, onde correu durante nada menos que 100 quilômetros!

Certamente não se alcança o que Murakami alcançou sem muito esforço, sem muito “Ganbatte”. Assimilar um pouco mais isso foi o primeiro grande ganho que tive ao ler esse livro.

Pois Murakami fala sobre escrever (mas não somente) quando fala de corrida. E sobre o esforço necessário, e sobre o condicionamento físico (!) que se precisa ter para ser um escritor. Levei uns bons puxões de orelha durante a leitura, pois o autor, ao colocar para si mesmo questões cruciais no ato da escrita, acaba devassando e desfazendo qualquer tentativa indulgente de autojustificativa para procrastinar e não escrever, prática muito comum dentre escritores que não aprimoraram sua força de vontade correndo dezenas de quilômetros diariamente. Felizmente para mim, recebi com humildade a sóbria e rígida lição do sensei. E aprendi um pouco mais, graças a Deus! Coloquei em prática alguns dos ensinamentos obtidos no livro, e digo com muita gratidão que nunca me senti escrevendo tão bem!

Não que esse livro seja algum tipo de manual sobre como escrever. As lições são mais de ordem existencial, sutil, e não algum tipo de guia passo-a-passo. Felizmente, fui agraciado por uma experiência que há quase um ano vem transformando muito positivamente minha vida: a Capoeira, que vem me ensinando como ser uma pessoa melhor e, por que não, um escritor melhor. Sinto que essa vivência com a Capoeira me possibilitou acessar muitos conteúdos “ocultos” no livro, que de outra forma teriam passado despercebidos.

Já havia lido e ouvido falar muito bem de Murakami antes de ler esse livro, que me foi lindamente presenteado por minha querida amiga e editora Bia Machado, a quem expresso, mais uma vez, minha imensa e crescente gratidão.

Outro grande ganho que tive ao ler esse livro surgiu só agora, na hora de escrever a resenha. Pois percebi que Murakami é tão bom escritor por ser tão japonês! Mas isso não significa que, para me tornar um bom escritor, eu precise virar japonês! Muito pelo contrário, meu caminho reside em me tornar, cada vez mais, um bom baiano. Que assim seja!


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ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058

 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

LINHA DO TEMPO – Michael Crichton


Esse livro me fez parar de beber Coca-Cola.

Michael Crichton é um autor de extremo êxito comercial, com mais de 200 milhões de livros vendidos em todo o mundo e inúmeras adaptações de suas obras para o cinema, como “Jurassic Park” e sequências, além de “Westworld”, “Congo” e o próprio “Linha do Tempo”, entre outros.

A trama de “Linha do Tempo” é bem instigante e original, misturando ficção científica, thriller e romance histórico. Em resumo: uma equipe de historiadores é enviada de volta no tempo até a Idade Média, graças a uma secreta tecnologia criada por uma megacorporação a partir da Mecânica Quântica. Chegando lá, os heróis vivem inúmeras aventuras, enquanto, no tempo presente, os cientistas da corporação se esforçam para trazer a turma de volta.

E o que é que a Coca-Cola tem a ver com isso? Isso é o que pergunto eu! Pois não é que lá pela página 300 e tanto (o livro é um tijolo) eu me deparo com um descarado e inegável merchandising dos refrigerantes da Coca-Cola!?!

A cena acontece assim: dois dos cientistas que estão tentando trazer a equipe de volta para o presente fazem uma pausa em seus incansáveis esforços. Vão até uma máquina de refrigerantes e escolhem entre os sabores de Coca-Cola, Sprite e Fanta (todos produtos da mesma corporação, sendo que, para quem não sabe, a Fanta foi criada durante a Segunda Guerra especificamente para os nazistas). E então um dos cientistas diz para o outro algo como: “Como estamos no deserto, é muito importante hidratar bem o organismo.” E os dois bebem gutiguti suas latas de líquido delicioso e refrescante. Só faltou a musiquinha empolgante e a mãozinha na cintura ao pôr-do-sol.

Para não deixar absolutamente nenhuma dúvida de que se tratava mesmo de uma cena de merchandising, umas dez páginas depois a Coca-Cola aparece de novo, em uma indecorosa associação com poder e êxito financeiro.

Se eu fosse expressar o tamanho de minha indignação, escreveria um livro mais grosso que “Linha do Tempo”. Fiquei sobretudo pê da vida comigo mesmo, por minha ingenuidade em considerar a Literatura um território sagrado, livre de tais profanações. Mas vou tentar explicar ao menos, sucintamente, porque acho que Michael Crichton merece o mármore do inferno.

“Linha do Tempo” é um thriller científico, embasado por muitos estudos sérios sobre Mecânica Quântica e outros tantos sobre História Medieval, a ponto de exibir uma orgulhosa bibliografia de várias páginas de obras científicas. E, ao mesmo tempo, a obra é voltada para o público jovem e adolescente, consumidor de aventuras no estilo “Parque dos Dinossauros”. Então considere: você lê algo sobre Mecânica Quântica que nitidamente está embasado em pesquisa, depois lê descrições da Europa medieval que também são claramente apoiadas por pesquisa histórica. Então você confere CREDIBILIDADE à narrativa. E logo em seguida, ao ler que a Coca-Cola é boa para hidratar o organismo, a tendência é que aceite isso como um fato! Principalmente se for um adolescente inseguro sobre seu papel na sociedade e ansioso por aceitação!

Isso a despeito do fato de ser público e notório (exceto para os que usam a Internet apenas para jogos e pornografia) que a Coca-Cola possui tanto açúcar que faria a pessoa vomitar no primeiro gole, caso esse açúcar não fosse contrabalançado por uma quantidade estúpida de sal. E que para cada copo de refrigerante precisaríamos beber TRINTA E DOIS copos de água meramente para minimizar os danos causados ao organismo!


Fiquei me sentindo tão mal com essa leitura que precisei encontrar algo de positivo nela, que acabou sendo a resolução de NUNCA MAIS beber um maldito refrigerante em minha presente encarnação. Michael Crichton, você merece o meu desprezo, por me mostrar que o dinheiro está mesmo acima de tudo para certas pessoas, mas também a minha gratidão, por demonstrar que em todas as situações podemos tirar algo de positivo!


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ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058
 

O ENIGMA DO CORONEL HAYTER E OUTRAS AVENTURAS – Arthur Conan Doyle


Gostei de rever o amado Sherlock nesta edição da Melhoramentos, voltada para o público infanto-juvenil, com direito a uma capa bem colorida e a ilustrações para os contos que compõem o livro, bem no estilo da igualmente amada Coleção Vaga-Lume (Ed. Àtica). A nova tradução me pareceu tornar o texto mais acessível aos novinhos, sem contudo desvirtuar ou desmerecer a narrativa original. Palmas para essa iniciativa!

Já falei algumas vezes, nas resenhas de histórias policiais, sobre a ideia do Romance Policial como uma metáfora para a jornada espiritual, onde o Mistério da morte é confrontado pela luz da Razão, representada pelo detetive, que se esforça para seguir as pistas e encontrar a Verdade, em meio a inúmeros e ilusórios despistes. Nesse contexto, as histórias de Sir Arthur Conan Doyle são como as Escrituras, e Sherlock Holmes é, inegavelmente, o grande Avatar!

Viva Sherlock Holmes!


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A MARCA – Fabio Shiva

Um intrigante conto de mistério e assassinato que tem como pano de fundo a saga dos Anunnaki... “A MARCA” foi originalmente publicada em “REDRUM – Contos de Crime e Morte” (Caligo Editora, 2014), sendo um dos sete contos selecionados para a antologia. Em 2016 a história foi republicada no livro duplo de contos “Labirinto Circular / Isso Tudo É Muito Raro”, de Fabio Shiva (Cogito Editora). E agora está disponível aqui. Boa leitura!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5825862

domingo, 8 de outubro de 2017

O CARTEIRO E O POETA – Antonio Skármeta


Por uma dessas estranhas inibições, até hoje não vi o filme inspirado nesse livro, que emocionou tanta gente. É que, por isso mesmo, foi tanta gente me dizendo que eu precisava ver o filme, que por algum secreto mecanismo de reação contrária fui sempre deixando para depois, e acabei deixando para lá.

Ao ser presenteado com não apenas um, mas dois exemplares do célebre livro de Antonio Skármeta (que antes do filme era intitulado “Ardente Paciência”, a partir de um verso de Rimbaud), percebi a Sincronicidade sinalizando que era hora de lê-lo.

A história do carteiro Mário Jimenez é contada de forma singela e tocante, combinando muito bem lirismo e humor. Em uma página você pode estar enxugando uma lágrima de emoção, e na página seguinte pode estar soltando uma gostosa gargalhada. Em seus melhores momentos, a prosa evoca um pouco a de García Márquez em seus melhores momentos – o que não é pouca coisa!!!

Como pano de fundo, trechos biográficos do grande poeta chileno Pablo Neruda e também um pouco da história do Chile durante a transição do governo de Salvador Allende para a ditadura de Augusto Pinochet conferem profundidade e peso dramático à narrativa.


Mas o mérito maior de “O Carteiro e o Poeta” é abrir, com a chave encantada da metáfora, um portal para o reino mágico da Poesia. Não tem como não se sentir ao menos um pouco poeta ao ler esse livro. Afinal, como disse o Poeta, só é possível ler poesia tornando-se poeta. E enxergar o mundo com olhos de Poesia é uma das curas mais lindas para boa parte dos sinistros problemas que tanto nos afligem nos dias de hoje. Viva a Poesia!


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MANIFESTO – Mensageiros do Vento

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

COGITO – Antologia Poética Internacional Vol. III


Mais uma bela iniciativa do querido Ivan de Almeida, à frente da Cogito Editora, que lança o terceiro volume dessa coletânea com 100 poetas de vários cantos do Brasil e também do exterior, com uma bela homenagem a Florbela Espanca.

Eu tive a alegria e a honra de participar com “O Dever da Poesia”:

O DEVER DA POESIA

Se a novela da tevê só ensina o que não presta,
É o dever da Poesia ser a esperança que resta.
Se os jornais só transmitem notícia comprada,
É o dever da Poesia ser a Verdade Revelada.

Se a política promete sem nunca cumprir,
É um dever da Poesia, o de jamais mentir.
Se a igreja, como a escola, está desmoralizada,
É um dever da Poesia, o de continuar sagrada.

Se o ódio e a intolerância crescem cada vez mais,
É o dever da Poesia ser um apelo à paz.
E se os valores fenecem por falta de guarida,
É o dever da Poesia dar sentido à vida!

Longa vida à Cogito Editora! E viva a Poesia!!!


terça-feira, 26 de setembro de 2017

A COISA – Stephen King


Durante boa parte de minha adolescência eu considerava Stephen King o melhor escritor de todos os tempos. Por essa época li vorazmente tudo o que pude dele. Dentre meus favoritos estão: "O Iluminado", “Carrie”, “O Cemitério” (sinistríssimo!), “Zona Morta”, “A Hora do Vampiro”, “Angústia”, “O Corpo”, “Sombras da Noite” e “Tripulação de Esqueletos”, tijolão de contos que devo ter lido umas quatro ou cinco vezes. Foi Stephen King quem primeiro me mostrou como um escritor pode arrebatar totalmente o coração e a mente do leitor, e foi também quem primeiro me fez ficar curioso sobre como essa incrível magia da escrita funcionava. Comecei a reler os livros dele com a intenção explícita de aprender como ele conseguia escrever histórias tão instigantes.

E então foi acontecendo algo interessante: à medida que eu ia aprendendo e desvendando alguns “truques” do mestre, a magia ia se tornando menos e menos intensa. Lembro que meu livro de despedida dessa paixonite por King foi “Tommyknockers”, onde me senti orgulhoso e feliz por conseguir prever boa parte da trama e, ao mesmo tempo, profundamente desiludido por esse mesmo motivo! Daí pra frente, continuei lendo tudo de Stephen King que caía em minhas mãos, mas fui perdendo cada vez mais o deslumbramento.

Agora, anos depois, quando eu mesmo estou escrevendo algo que pode ser considerado, sob certos aspectos, uma história de terror, decidi reencontrar o antigo ídolo de minha adolescência. Reli alguns de meus contos favoritos dele, e então resolvi partir logo para um de seus maiores clássicos, que eu ainda não havia lido (apesar de ter visto e gostado da primeira adaptação televisiva): “A Coisa”.

Este é certamente um livro audacioso, a grande “tour-de-force” de King, então no auge de sua fama, em 1986. São mais de 700 páginas de uma saga que acontece paralelamente em dois momentos distintos, com a história de um grupo de crianças enfrentando a “Coisa” (que falta que faz o pronome neutro “It” no português!) em 1958, alternando com um novo enfrentamento, ocorrido em 1985, com as crianças sobreviventes já adultas e bem sucedidas no mundo de “gente grande”, tendo que retornar à sua cidadezinha natal para cumprir a promessa de infância e voltar a combater o velho e maligno monstro.

Essa alternância entre as duas linhas temporais é responsável pelos maiores méritos e também pelas grandes fragilidades de “A Coisa”. Por um lado é de se admirar a proposta grandiosa e épica, com o ápice em um trecho onde as cenas de tensão vão se sucedendo em rápida sequência, pulando o tempo todo de 1958 para 1985. Por outro lado, essa duplicidade de espelho acaba gerando muitas repetições e tornando a leitura um tanto cansativa, ao menos para mim.


Pois uma coisa certamente percebi ao ler esse livro (e ao assistir à nova versão cinematográfica): ainda estou jovem para morrer, mas já estou velho demais para histórias de terror. A leitura de “A Coisa” confirmou algumas descobertas que venho fazendo ao longo das muitas leituras do gênero:

* A história de terror, surgida na esteira da revolução industrial, é uma tentativa de manter algo do Mistério em meio a uma sociedade cada vez mais dominada pela ciência e despojada do sentido do sagrado. Isso é muito evidente em “A Coisa”, com sua cosmogonia dualista.

* Muito do terror moderno é construído a partir de um recurso que é comumente chamado de “suspense”, mas que eu prefiro chamar de “ameaça”. Exemplifico: a mocinha está sozinha em casa, tarde da noite, quando ouve o barulho de alguém arranhando a porta. Ela fica gelada de medo, mas ainda assim resolve descobrir quem está à porta. E assim se passam páginas e mais páginas de pura encheção de linguiça, até que a mocinha abre a porta e vê que é seu cachorrinho Totó que voltou... Isso para mim não é suspense, é “ameaça”. O suspense verdadeiro ocorre quando algo trágico está para acontecer, que é ignorado pelo personagem, mas não pelo leitor.

* Todo livro ou filme de terror pode funcionar bem até a hora crítica, que é o momento em que o monstro se mostra, quando ele sai das sombras e finalmente se dá a conhecer. É um momento quase poético, quando a terrível criatura exibe sua fragilidade intrínseca e demonstra a verdade cabal de que o medo, ao ser encarado de frente, deixa de incomodar. É muito raro um monstro que continua sendo assustador depois de sair para a luz.


* Por fim, mas não menos importante: nesse momento em que vivemos, quando nenhuma obra de ficção consegue ser mais apavorante que o Jornal Nacional, é quase um alívio mergulhar no mundo dos monstros sobrenaturais de Stephen King. Perto de Trump e Temer, a Coisa até que é bonitinha...


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A MARCA – Fabio Shiva

Um intrigante conto de mistério e assassinato que tem como pano de fundo a saga dos Anunnaki... “A MARCA” foi originalmente publicada em “REDRUM – Contos de Crime e Morte” (Caligo Editora, 2014), sendo um dos sete contos selecionados para a antologia. Em 2016 a história foi republicada no livro duplo de contos “Labirinto Circular / Isso Tudo É Muito Raro”, de Fabio Shiva (Cogito Editora). E agora está disponível aqui. Boa leitura!
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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

BY THE PRICKING OF MY THUMBS (UM PRESSENTIMENTO FUNESTO) – Agatha Christie


Mesmo sendo um consumado fominha de Agatha Christie e tendo lido boa parte de seus livros duas e até três vezes, deixei esse “Um Pressentimento Funesto” (e no original em inglês ainda por cima!) ficar comendo poeira na minha estante por nada menos que doze anos, antes de finalmente me animar a lê-lo. O motivo para ter encontrado outros livros para passar na frente desse por tanto tempo é simples: não gosto das aventuras do casal Tommy e Tuppence, que protagonizam essa história de Agatha. Na mesma medida em que acho as tramas policiais de Agatha geralmente brilhantes e maquiavelicamente concebidas, acho as aventuras de espionagem dela muito ingênuas e rocambolescas. Questão de gosto, respeito quem tenha opinião diferente.

No início do ano reli sem querer “O Inimigo Secreto”, primeira história do casal Beresford, e mesmo sem gostar do livro acabei fazendo uma boa leitura. Então me animei a finalmente tirar o pó desse “Um Pressentimento Funesto”, que desconfio ter sido a última aventura da dupla. Dessa vez, já comecei a leitura com uma postura diferente, tentando descobrir qual seria a motivação de Agatha ao escrever essas histórias que, em minha opinião, estavam muito abaixo de seu talento.

A primeira pista que encontrei foi que esse livro certamente traz muitas reflexões da autora a respeito da velhice. Agatha ainda era bem jovem ao conceber sua célebre Miss Marple. Creio que aqui, em “By The Pricking of My Thumbs” (título que faz referência à minha tragédia favorita: “Macbeth”), a autora decidiu colocar no papel algo de suas angústias sobre envelhecer... com uma pitada de vingança!

Outro ponto que chama a atenção é o quanto essas histórias de T & T são recheadas de coincidências forçadas e mostram a autora sempre se aventurando sobre terrenos desconhecidos (e demonstrando seu desconhecimento em situações pouco convincentes).

Talvez seja uma necessidade de Agatha de expressar algo do “wit” britânico, que a tenha feito dar vida a esse casal que pode perder o cônjuge, mas não perde a piada...

De toda forma, foi o livro de Tommy e Tuppence que eu mais gostei.

E viva Agatha Christie!



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A MARCA – Fabio Shiva

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