sábado, 18 de março de 2017

O PAPALAGUI


Esplêndido! Uma obra tocante e inesquecível.

Tuiávii, chefe da tribo Tiavéa, na Polinésia, tinha muita curiosidade em conhecer as terras do “Papalagui”, palavra que em Samoa designa o Branco, o Estrangeiro. E foi assim que integrou um grupo teatral popular e acabou visitando muitas cidades na Europa, e conhecendo profundamente os hábitos, costumes e valores do Papalagui. De volta à sua terra, redigiu uma série de apontamentos com o que aprendeu, com o propósito de partir em uma expedição missionária, a fim de alertar seu povo sobre os perigos de abraçar a cultura do homem branco. O alemão Erich Scheurmann, que na época visitava as ilhas dos mares do sul, tornou-se amigo de Tuiávii e traduziu seus escritos, tornando o texto acessível aos ocidentais.

Esta é a versão oficial. Há quem diga que o texto todo foi inventado pelo próprio Scheurmann. Eu, pessoalmente, tendo a dar crédito a essa possibilidade. Pois os textos desse pequeno grande livro revelam um conhecimento tão profundo da sociedade e da psicologia ocidental, que sugerem uma sabedoria e uma percepção verdadeiramente sobre-humanas. Por outro lado, caso seja Scheurmann o autor, o valor do texto não é diminuído, muito pelo contrário: há aqui a inegável marca de uma grande obra de arte!

Seja como for, esse é um livro que merece ser lido com o espírito aberto e profunda atenção. A civilização tecnológica errou feio o caminho, em algum ponto de sua trajetória. Talvez ainda dê tempo de consertar isso. E o grande valor de “O Papalagui” está em apontar algumas das causas mais evidentes para esse mau passo do mundo moderno, que tornou os homens cegos para o Grande Espírito. Essa é, em minha opinião, a origem de todo o erro.

TRECHOS DO LIVRO:

"Os Brancos corromperam os missionários para que eles nos enganassem com as palavras do Grande Espírito. Pois o metal redondo e o papel pesado, que eles chamam dinheiro, é que são a verdadeira divindade dos Brancos."

"Existe aí uma grande injustiça que o Papalagui não nota, nem quer pensar sobre isto para não ser obrigado a reconhecer que ela existe. Nem todos que têm muito dinheiro trabalham muito."

"Ó irmãos, acreditai no que vos digo: ocultei-me atrás dos pensamentos do Papalagui e vi o que ele quer, como se o iluminasse o sol do meio-dia. Destruindo, onde quer que vá as coisas do Grande Espírito, o Papalagui com sua própria força pretende dar vida, novamente, àquilo que matou, convencendo-se assim de que é o Grande Espírito porque faz muitas coisas."

"Mostra que é muito pobre aquele que precisa de coisas em quantidade porque, assim, prova que lhe faltam as coisas do Grande Espírito." 

"Ó irmãos, que é que pensais do homem cuja cabana é tão grande que dá para uma aldeia inteira e que não oferece ao viajante o seu teto por uma noite? Que é que pensais do homem que tem um cacho de bananas nas mãos e não dá uma só fruta a quem, faminto, ávido, lhe pede? Vejo a zanga nos vossos olhos, o maior desprezo nos vossos lábios. E vede que é isso que o Papalagui faz a todo momento. E mesmo que tenha cem esteiras nenhuma dá ao que nenhuma tem. Pelo contrário, acusa-o e censura-o por não ter. Pode estar com a cabana cheia de mantimentos até o alto, muito mais do que ele e sua aiga comem em 100 anos. Não sairá à procura dos que não têm o que comer, dos que estão pálidos de fome. E há muitos Papalaguis pálidos de fome. A palmeira deixa cair as folhas e frutos que estão maduros. Mas o Papalagui vive como se a palmeira quisesse retê-los. ‘São meus! Não os tereis! Jamais deles comereis!’ Mas como faria então a palmeira para dar novos frutos? A palmeira é muito mais sábia do que o Papalagui."

“Assim, todas as coisas prodigiosas do Papalagui têm um lado fraco, oculto em algum lugar; máquina não há que não precise de quem a vigie, de quem a toque; máquina não há que não contenha uma secreta maldição. A mão poderosa da máquina faz tudo, sim, mas enquanto trabalha, vai devorando o amor que encerram as coisas que fazemos com as mãos. De que me serve uma canoa, uma clava talhada pela máquina? Uma máquina é um ente frio, sem sangue, que não sabe falar do seu trabalho, que não sorri quando acaba; que não pode mostrá-lo ao pai e à mãe para que eles também fiquem contentes. Como é que poderei amar minha tanoa se uma máquina é capaz de fazer outra igual a qualquer momento, sem o meu trabalho? Aí está a grande maldição da máquina: é que o Papalagui já não ama coisa alguma porque a máquina pode refazer tudo, a qualquer momento. Para que a máquina lhe dê os seus prodígios sem amor, o homem deve alimentá-la com o próprio coração.”

“O Grande Espírito é que determina, sozinho, as forças do céu e da terra; é quem as reparte como lhe parece melhor. Não cabe ao homem fazer isso; não é impunemente que o Branco tenta transformar-se em peixe, ave, cavalo e verme. E com isso ganha muito menos do que confessa. Quando atravesso uma aldeia a cavalo, vou mais depressa, é claro; mas quando caminho a pé, vejo mais coisas e o meu amigo pode me convidar para entrar em sua cabana. Raramente se ganha de verdade quando se chega mais rapidamente ao que se procura. Mas o Papalagui está sempre querendo chegar depressa ao seu objetivo. Quase todas as suas máquinas servem, apenas, para chegar rápido a certa meta. Mas, quando chega, outra meta o atrai. O Papalagui desse modo vive sem jamais repousar; e cada vez mais desaprende o que é andar, passear, caminhar alegremente em direção ao que não procuramos mas vem ao nosso encontro.”

“Quem lê o jornal não precisa ir a Apolima, Manono, Saváii [ilhas de Samoa] para saber o que os amigos fazem, pensam, comemoram. Pode-se ficar deitado, calmamente, na esteira que os muitos papéis contam tudo.”


“Mas não é só isto que faz do jornal uma coisa tão ruim para a nossa mente, quando nos conta o que aconteceu; é que ele também nos diz o que devemos pensar a respeito disso e daquilo, a respeito do nosso chefe, dos chefes de outros países, de tudo quanto ocorre, de tudo que a gente faz. O jornal gostaria de fazer que todos os homens pensassem igual; o jornal é inimigo da minha cabeça, é inimigo do que eu penso.”

\\\***///

MANIFESTO – Mensageiros do Vento

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

sexta-feira, 17 de março de 2017

O FALECIDO MATTIA PASCAL – Luigi Pirandello


Muito bom esse livro, obra que diverte e faz pensar. Dentre todos os autores laureados com o Prêmio Nobel de Literatura que li até hoje, Pirandello é certamente o que tem a veia cômica mais aflorada.

É o próprio Mattia Pascal quem narra sua singular história: “já morri, sim, duas vezes, mas a primeira, por engano, e a segunda... irão saber.”

Dado como morto por todos que o conheciam, Mattia tem a oportunidade de começar uma nova vida, sob uma nova identidade. Mas longe de ser a liberdade que ele almejava, a condição de “morto” acaba se tornando uma nova e insuspeitada escravidão... o que não o impede de desenvolver uma série de reflexões sobre a vida e a morte.

Muito interessante é o recurso utilizado pelo autor de apresentar, através do personagem Paleari, alguns pensamentos bem profundos sobre o sentido da vida, mas que são recebidos pelo um tanto obtuso Mattia Pascal com deboche e ironia, como se não passassem de devaneios de um velho gagá. Recurso arriscado, que em mãos menos hábeis talvez não surtisse o efeito desejado, de fazer pensar sem cometer o grave crime de querer “dar aula” ao leitor, além de deixar a questão em aberto, possibilitando novas reflexões.

Eu, pessoalmente, obtive dessa leitura um ganho a mais, pois ao contrário da maioria das pessoas, também já morri, não apenas duas, mas três vezes, graças a um problema na parte elétrica do coração que obrigou os médicos a forçarem uma parada e a reinicialização das batidas cardíacas por meio de choque elétrico. Trata-se de um procedimento perigoso e de êxito incerto, mas felizmente dei um “restart” no coração por três vezes e ainda estou aqui. Foram momentos difíceis para mim e para minha família, mas hoje posso dizer que foram algumas das melhores coisas que já me aconteceram, por me proporcionar, assim como ao caro Mattia, a possibilidade de vivenciar de forma mais próxima a morte e, assim, obter uma visão privilegiada sobre a preciosa dádiva da vida. Foi, aliás, graças a esses episódios que passei a me chamar Fabio Shiva (tendo nascido Fabio Lopes Barretto), como explico no poema “3 X CTI”:

Fabio Lopes morreu.
Fabio Barretto morreu.
Fabio sem nome morreu.

Antes eles do que eu!


\\\***///


MANIFESTO – Mensageiros do Vento

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

sábado, 11 de março de 2017

Resenha Poética


Resenha dos livros:
* A URBE A GENTE E OS OUTROS - Nadia Virginia
* ALÉM DO PENSAR - Carla LaForgia
* O ENIGMA DA FLOR - Ivan de Almeida

\\\***///


ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058

domingo, 5 de março de 2017

ONDE EXISTE LUZ – Paramahansa Yogananda


Dizer que este é um dos melhores livros que li na vida é pouco!

“Onde Existe Luz” é uma seleção de ensinamentos de Paramahansa Yogananda, extraídos de suas palestras, de outros escritos e até de conversas testemunhadas pelos discípulos. São pequenos textos, de um ou dois parágrafos cada, organizados de acordo com o tema em 13 capítulos, dentre os quais se destacam na contracapa do livro:

  • Descobrir a sabedoria e a força necessárias para tomar decisões na vida
  • O antídoto contra o estresse, a preocupação e o medo
  • Transformar em êxito os fracassos
  • Segurança em um mundo incerto
  • Aperfeiçoar os relacionamentos humanos
  • O poder das afirmações e da oração
  • Compreender a morte
  • Desenvolver um relacionamento pessoal com Deus

Depois da “Autobiografia de um Iogue”, considero este livro o mais indicado para discípulos iniciantes e pessoas desejosas de conhecer um pouco mais sobre os ensinamentos de Yogananda. Pela própria estrutura do livro, o leitor tem a impressão de estar conversando diretamente com o guru, e não poucas vezes recebendo o ensinamento necessário no momento exato! Posso dizer por experiência própria que é uma experiência maravilhosa e muito estimulante espiritualmente.

Li este livro pela primeira vez há mais de dez anos. Depois de ter lido o livro do início ao fim, passei a utilizá-lo como uma espécie de “linha direta” com o guru, abrindo o livro ao acaso quando estava precisando de orientação sobre algum problema específico. Não me lembro de ter ficado nenhuma vez sem a esperada resposta (se fui capaz ou não de colocar em prática os ensinamentos, é outra história). Esse hábito foi muito importante para me ajudar a estabelecer um canal de comunicação com Yogananda, que venho buscando tornar cada vez mais efetivo desde então.

Algum tempo depois dei o meu exemplar de presente (como costumo fazer com os meus livros mais preciosos). E alguns meses atrás, ao passar meu enésimo exemplar da “Autobiografia de um Iogue” para uma querida amiga, recebi das mãos dela justamente “Onde Existe Luz”. Raras vezes saboreei tanto a (re)leitura de um livro! Li com vagar, me detendo a cada parágrafo, refletindo e sempre me admirando com a colossal sabedoria desse grande ser de luz.

Recomendo com todo meu coração aos buscadores sinceros de todas as religiões, que encontrarão neste livro inúmeras lições práticas sobre como aprofundar seu conhecimento de Deus.

“(...) não pode haver trevas onde existe luz.” – Paramahansa Yogananda


Jai Guru!


\\\***///


MANIFESTO – Mensageiros do Vento

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine que esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590


sexta-feira, 3 de março de 2017

MAIGRET E O FANTASMA – Georges Simenon


O comissário Jules Maigret está praticamente de virote quando é chamado para resolver um caso difícil: o inspetor Lognon sofreu um atentado durante a madrugada e está entre a vida e a morte. O caso é especialmente árduo porque Maigret conhece e simpatiza com a vítima, o pobre inspetor conhecido entre os policiais como Sem Sorte...

Como sempre, é um deleite ler um livro escrito por Simenon. A história flui que é uma beleza, sem esforço, como se estivesse se escrevendo sozinha. Admiro muito a maneira como ele retrata um personagem em poucas linhas, através de pequenos detalhes que nos fazem vislumbrar sua personalidade e sua psicologia oculta. Mas sobretudo sou fã da maneira como ele descreve os cenários, com inimitável maestria, sempre interagindo com o mundo humano, de tal forma que os próprios cenários também parecem vivos!

Nesse livro tive um vislumbre do famoso método-da-falta-de-método de Maigret: creio que ele é principalmente um grande intuitivo, que capta no ar as coisas... Por isso os livros de Simenon não se prestam muito ao velho jogo de descobrir o assassino, mas o leitor nem se dá conta disso, de tão envolvido que fica no climão insuperável das aventuras de Maigret!


\\\***///


A MARCA – Fabio Shiva

Um intrigante conto de mistério e assassinato que tem como pano de fundo a saga dos Anunnaki... “A MARCA” foi originalmente publicada em “REDRUM – Contos de Crime e Morte” (Caligo Editora, 2014), sendo um dos sete contos selecionados para a antologia. Em 2016 a história foi republicada no livro duplo de contos “Labirinto Circular / Isso Tudo É Muito Raro”, de Fabio Shiva (Cogito Editora). E agora está disponível aqui. Boa leitura!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5825862
 



domingo, 26 de fevereiro de 2017

UM JEITO TRANQUILO DE MATAR – Chester Himes


Há tempos eu queria ler um livro de Chester Himes, um dos autores “clássicos” de romances policiais que eu ainda não conhecia. O que primeiro chama a atenção nesse autor é a sua biografia: aos 19 anos, foi condenado a 25 anos de prisão por assalto a mão armada. Começou a escrever na prisão. Só esse fato já desperta a curiosidade: um autor de livros policiais que passou boa parte da vida detrás das grades certamente deve ter coisas interessantes a dizer.

Contudo as primeiras páginas de “Um Jeito Tranquilo de Matar” não são muito promissoras: o livro começa com uma briga de bar com direito a facadas, machadas e tiros, com um nível de violência tão elevado que eu pelo menos achei que a história seria uma mera sucessão brucutu de pancadarias sem sentido... ledo engano!

Pois logo depois desse susto inicial começamos a perceber as intenções e a profundidade da visão do autor. A violência não é gratuita: tem o propósito de denunciar as agressões muito mais severas do racismo. É muito raro encontrar um romance policial com algum tipo de mensagem social. E o melhor de tudo é que a história em si funciona e atende a todos os critérios de um bom romance policial.

A reflexão extra que essa leitura me proporcionou foi o do quanto livros policiais, de suspense, terror etc. têm o propósito de chocar o leitor. Algumas cenas desse livro são fortes ainda hoje, que dirá em 1959 nos Estados Unidos, quando a obra foi publicada! Por outro lado, essa meta de chocar o leitor me parece cada vez mais difícil de ser atingida no mundo cada vez mais louco em que vivemos!


\\\***///


ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058

NEVE – Orhan Pamuk



O que primeiro me interessou na leitura desse livro foi o fato do autor, Orhan Pamuk, ter sido laureado com o Nobel de Literatura em 2006. Depois que comecei a ler, vi que o livro é uma bela oportunidade de conhecer um pouco sobre o islamismo e os conflitos a ele associados. Mas o grande proveito que tirei de “Neve” foi mesmo o mergulho nas emoções e motivações de um poeta em pleno processo de criação!

O livro é escrito com muita sensibilidade e criatividade, com o uso de recursos como saltos temporais na narrativa e a inclusão do próprio autor como personagem. A narrativa tem um sabor inegavelmente “estrangeiro”, fora do padrão a que eu pelo menos estou mais acostumado, o que por momentos foi muito interessante, mas que também torna a leitura um pouco cansativa às vezes. E os assuntos abordados também ajudam a provocar essa estranheza: boa parte da história gira em torno de jovens que se suicidam porque o governo as proíbe de usar o manto em escolas e outros locais públicos...

Esse livro trará deleite especial para poetas e para os que amam a poesia. O autor coloca de forma muito vívida o processo de “inspiração poética”, quando o poeta “ouve” o poema, mais do que o cria, a ponto de ter a sensação de que simplesmente foi o anotador do poema. Senti isso muitas vezes, graças à Musa! Bem diferente é o processo da prosa, que exige um trabalho disciplinado e até meio burocrata, “de sentar para escrever todos os dias à mesma hora”, como bem coloca o autor.


Uma bela e inspiradora leitura, muito atual! 


\\\***///


MANIFESTO – Mensageiros do Vento!

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine que esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590


O JARDIM DE OSSOS – Tess Gerristsen


Bem legal esse “suspense médico”, que começa de forma despretensiosa, mas vai aos poucos capturando a atenção do leitor.

A narrativa se divide em duas linhas temporais, uma em 1888 e a outra nos dias atuais. O evento que liga as duas histórias é a descoberta de um esqueleto enterrado há mais de 100 anos no jardim de uma casa, com todos os indícios de um assassinato. Isso leva a protagonista Julia Hammil a investigar uma série de crimes ocorridos no século XIX e atribuídos ao “Estripador de West End”.

Esse é o primeiro livro que leio nessa categoria de “suspense médico”, em que considerei marcantes as descrições bem detalhadas de autópsias e outros procedimentos médicos. Por outro lado, é bem marcante a “feminilidade” na narrativa, pois tudo é narrado muito pelo ponto de vista feminino. Uma combinação bem inusitada, mas que deu certo!


O que chamou mais a minha atenção foi a descrição dos procedimentos médicos do século XIX, totalmente incorretos à luz dos conhecimentos de hoje, somada à incrível arrogância dos médicos, que prescreviam sangrias a três por quatro e saíam de uma dissecação de cadáver feita a mãos nuas direto para a sala de parto... sem lavar as mãos! De lá para cá o conhecimento médico avançou um pouco, mas a arrogância continua a mesma! O que me lembra de um amigo querido, que sempre diz que nossa medicina ainda é medieval... e cada vez mais concordo com ele! O futuro mostrará....


\\\***///


A MARCA – Fabio Shiva

Um intrigante conto de mistério e assassinato que tem como pano de fundo a saga dos Anunnaki... “A MARCA” foi originalmente publicada em “REDRUM – Contos de Crime e Morte” (Caligo Editora, 2014), sendo um dos sete contos selecionados para a antologia. Em 2016 a história foi republicada no livro duplo de contos “Labirinto Circular / Isso Tudo É Muito Raro”, de Fabio Shiva (Cogito Editora). E agora está disponível aqui. Boa leitura!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5825862
 

sábado, 4 de fevereiro de 2017

O INIMIGO SECRETO – Agatha Christie



Dois jovens amigos, Tommy e Tupence, se reencontram após a Primeira Guerra e, sem vintém, decidem abrir uma firma de aventureiros. É o suficiente para iniciar uma série de aventuras mirabolantes com incríveis coincidências, onde o jovem casal acaba sendo contratado para o serviço secreto, a fim de recuperar um documento que exporia a falsidade do governo inglês, e assim enfrentam os criminosos mais perigosos do mundo, reunidos, que são facilmente sobrepujados pela superior fibra moral britânica... tudo para evitar o colapso comercial da sociedade e o mal supremo de uma greve geral!

Peguei um punhado de livros de Agatha no sebo para reler. Esse veio por engano, pois eu sempre detestei suas histórias de espionagem. Como já estava comigo, resolvir reler. Tive bons aprendizados, pois li com essa intenção mesmo. Resumindo:

1) A ingenuidade de Agatha – eu sempre achava intrigante Agatha ser tão “maliciosa” em seus romances policiais e tão “ingênua” nos livros de espionagem. Nessas releituras em série que venho fazendo tive a percepção de que as histórias de assassinato também não deixam de ser bidimensionais, uma vez que muito pouco se explora as emoções dos personagens diante de evento tão chocante quanto a morte violenta de alguém próximo. Só que na história policial existe o jogo de adivinhar o assassino, e o jogo é que está acima de tudo.

2) Coincidências – logo no começo do livro Agatha afirma algo como: “depois que a primeira coincidência acontece, elas costumam se seguir com uma frequência espantosa”. Acredito por experiência própria nessa afirmação, que inclusive é o tema central de “A Profecia Celestina” de James Redfield, escrito décadas depois de “O Inimigo Secreto”. Só que o que vale na vida real, curiosamente, pode não funcionar na ficção. Coincidências incríveis acontecem no dia a dia e causam maravilhamento, mas em um romance despertam  algo próximo da indignação... é muito curioso isso!

3) Patriotismo – muito do apelo da história, ao menos para o público britânico, deve ter sido o casal de protagonistas que são propagandas ambulantes de como os ingleses são melhores que todos os outros povos... O cinema e a literatura norte-americana estão repletos desse tipo de ufanismo. Isso me provocou, como escritor: fiquei com vontade de escrever uma história louvando o brasileiro “que não desiste nunca”, esse filho da “Pátria do Evangelho” (livro de Chico Xavier) etc. Mas percebi que não tenho vocação para isso. Primeiro, porque percebi que meu primeiro sentimento ao pensar em minha brasilidade é a vergonha de nossa indulgência com a corrupção. Temos tantos políticos corruptos porque está impregnado na consciência do brasileiro a noção de “levar vantagem”. Em segundo lugar, considero (como Einstein) o patriotismo uma espécie de doença infantil da humanidade, como o sarampo. Quando evoluirmos um pouco perceberemos nossa condição de terráqueos, acima dessas pequenas diferenças nacionais. Assim espero!

Ou seja, acho esse livro fraquinho que só... recomendado apenas para uma criança nerd muito inteligente (para curtir um romance que se passa há 100 anos atrás) e ao mesmo tempo muito inocente (para vibrar com as aventuras quixotescas) com uma noção nula de política (para que o extremo conservadorismo e ignorância política de Agatha não estraguem sua diversão). Será que essa criança existe?


Mas não gostar do livro não me impediu de fazer uma boa leitura dele!


\\\***///



ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058
 

UM ASSASSINO ENTRE NÓS – Ruth Rendell


Genial, genial, genial!

Li esse livro pela primeira vez há uns cinco anos, quando eu havia acabado de escrever meu primeiro romance, o policial “O Sincronicídio”. Nessa primeira leitura, me senti muito agraciado, pois os dois livros têm em comum o fato de anunciarem nas primeiras linhas um acontecimento central na história, que só se dará ao final do livro. Na época cheguei a ser criticado por um dos editores a quem apresentei o original do livro. Ele queria publicar o meu livro, na condição de que eu abrisse mão dessa revelação logo no primeiro capítulo. Recusei terminantemente, mas é claro que fiquei um pouco ansioso, afinal aquele era meu primeiro livro. E então chegou a leitura de “A Judgement in Stone” (li no original da primeira vez), como uma benção, sinalizando: “acredite na sua voz, siga em frente!” (Felizmente pouco depois o meu livro foi lido pela querida Bia Machado, da Caligo Editora, que decidiu publicar “O Sincronicídio” – sem alterações).

Cinco anos depois, encontrei em um sebo “Um Assassino Entre Nós”, dessa autora que tanto admiro, Ruth Rendell (dela já li também o fabuloso “Carne Viva”, no qual se baseou o filme “Carne Trêmula” do Almodóvar). Não me toquei que era o mesmo livro que eu havia lido anos antes, com o título de “Um Julgamento na Pedra” (ou algo assim). E que bom, pois isso me deu a oportunidade de mergulhar novamente nessa trama perfeitamente urdida.

Esse livro é tão bem escrito que nos convence de que a história aconteceu mesmo. Excelente ritmo, personagens bem concebidos e um suspense que deixa o leitor grudado na leitura até a última página.

Essa segunda leitura me foi muito proveitosa, pois possibilitou perceber algumas das técnicas utilizadas pela autora.


Recomendadíssimo!


\\\***///



A MARCA – Fabio Shiva

Um intrigante conto de mistério e assassinato que tem como pano de fundo a saga dos Anunnaki... “A MARCA” foi originalmente publicada em “REDRUM – Contos de Crime e Morte” (Caligo Editora, 2014), sendo um dos sete contos selecionados para a antologia. Em 2016 a história foi republicada no livro duplo de contos “Labirinto Circular / Isso Tudo É Muito Raro”, de Fabio Shiva (Cogito Editora). E agora está disponível aqui. Boa leitura!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5825862
 
 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...