domingo, 23 de abril de 2017

DEUS NO LABIRINTO – Ricardo Labuto Gondim



Desde que li o incrível romance policial “B”, sou fã do querido Ricardo Labuto Gondim. E que alegria linda ler seu primeiro livro e descobrir que o autor é ainda melhor do que eu pensava!

“Deus no Labirinto” me pegou de surpresa. Superou totalmente minhas expectativas, que já eram bem elevadas. Aqui descobri que Ricardo tem bem mais recursos do que eu suspeitava. Nos contos bem variados que compõem o livro, ele consegue uma proeza somente alcançada pelos melhores: ele seduz o leitor a acreditar e confiar em seu mundo, no mundo imagético criado com palavras e sentimentos, que no decorrer da leitura vai se tornando cada vez mais “real” para o leitor.

São muitas as qualidades do escritor: uma prosa refinada e recheada de erudições, sem ser pedante, que temperada com uma fina ironia torna o texto muito atraente. E sobretudo uma diversidade temática e imaginativa verdadeiramente instigante: Ricardo é imprevisível, no melhor sentido possível.

Gostei especialmente da história que dá o título do livro, um corajoso e virtuoso exercício que mistura autobiografia e ficção com enigmas teológicos, e também de “Café Gangplanck”, tocante homenagem a Bukowski, e “Mandark, o Mágico”, que antecipa os sedutores elementos do romance “B”, mas que também ousa avançar além, muito além, audaciosamente tocando os limites que uma história de ficção pode alcançar. Muitíssimos parabéns!

O livro encerra com “dois ensaios ociosos” que mesclam de forma bem interessante a teologia e a arte, sobretudo a música e o cinema. Esses textos me evocaram um pouco os prefácios do Bernard Shaw, onde o autor expunha em forma de ensaio as principais ideias que motivaram suas peças. Aqui a ligação não é tão evidente, mas fica bem perceptível ao leitor atento a exposição dos temas que inquietam e motivam o autor, muito presentes em suas ricas histórias.


Muito bom ser contemporâneo e principalmente amigo de um escritor de tal envergadura! Viva a Literatura Brasileira! Viva Ricardo Labuto Gondim!


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MANIFESTO – Mensageiros do Vento

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

quarta-feira, 19 de abril de 2017

A.B.C. DE CASTRO ALVES – Jorge Amado


O maior escritor homenageia o maior poeta da Bahia, em um texto apaixonado e apaixonante! Quem já amava Castro Alves, após a leitura de seu ABC terá mais e melhores motivos para considerá-lo um grande gênio da raça! E quem ainda não ama o Poeta da Liberdade, terá aqui uma linda oportunidade de se deixar seduzir pela paixão condoreira!

Acostumado à prosa fluida e lúdica de Jorge, a princípio estranhei tantas e extensas notas de rodapé, com tantos mínimos detalhes. Depois fui entendendo que era o amor a Castro Alves que motivava o desejo pela exatidão histórica e pela minúcia. E foi o mesmo amor desmedido que se manifestou de outra forma para mim surpreendente: em seus arroubos, Jorge Amado não mede palavras e bate forte em alguns nomes como Mário de Andrade, Tobias Barreto e Machado de Assis!

A pinimba com Mário de Andrade fica bem compreensível, pois foi o paulista que implicou primeiro com o baiano, ao fazer uma crítica meio estrambótica a Castro Alves, comparando-o a Fagundes Varela: o autor de Macunaíma desgosta profundamente do fato de um carvalho, na poesia de Castro Alves, se referir a um carvalho, enquanto na de Varela pode ser um carvalho ou uma baraúna, ou um salgueiro... chegando ao ponto de louvar Varela por sempre enfiar uma cachoeira em seus poemas, gerando um “mistério psicológico”, enquanto Castro Alves estaria reduzido a uma “pobre realidade”... Convenhamos que é implicância pura, e por conta disso Mário de Andrade levou uma bela duma espinafrada de Jorge Amado. Merecida, em minha opinião.

Já no caso de Tobias Barreto e, principalmente, de Machado de Assis, penso que a ira de Jorge foi um pouco pesada demais, julgando-os pelo fato de, sendo ambos mestiços, não terem se colocado de forma mais aberta contra a escravidão. Penso que só quem sentiu na pele (literalmente) o racismo que eles sofreram é que pode entender o motivo desta ou daquela atitude.


Outro caso de exageros de amor de Jorge Amado por Castro Alves, esse mais engraçado, é quando o autor do ABC dá um pito daqueles na mulher que foi a última paixão do poeta, pelo simples motivo dela ter se recusado a ceder aos ardentes desejos de Castro Alves, por medo de ficar falada na cidade, perdendo seu status social e com ele seu ganha-pão de professora particular. Jorge fica mesmo retado com a tal fulana por não ter aliviado a barra do poeta! O que na verdade é um recurso de gênio, pois com essa birra Jorge Amado consegue dar uma nota cômica em um momento muito triste da biografia de Castro Alves.

Em resumo, o livro é isso: um gênio falando de outro. Ou seja, um deleite de encher os olhos! Um efeito que eu apreciei particularmente foi o fato de Jorge narrar a história de Castro Alves para sua “amiga” (Zélia Gattai, certamente), dando um toque amoroso e uma narrativa sentimental paralela que muito soma à beleza da narrativa.

Diante de tudo isso, só posso agradecer à Mainha pela dádiva de ter nascido nessa terra de magia e beleza, que viu nascer um Castro Alves e um Jorge Amado, dentre tantos outros espetaculares baianos!


Viva a Bahia! Viva Jorge Amado! Viva Castro Alves!



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ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058
 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

CONTOS CRUÉIS – As narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea


Organizada por Rinaldo de Fernandes, esta imponente antologia traz nada menos que 47 contos, alguns deles assinados por nomes consagrados como Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Lygia Fagundes Telles, Marçal Aquino, Caio Fernando Abreu, Roberto Drummond, Moacyr Scliar, Ignácio de Loyola Brandão e Nélida Piñon, entre outros tantos.

Muitos são os bons motivos que podem levar o leitor a encarar esse tijolo que pinga sangue, desde o estudo da violência em nossa sociedade contemporânea a uma pura e simples diversão movida a catarse. Minha motivação principal foi a bela oportunidade de aprender um pouco mais sobre a estrutura e a construção do conto, que ao meu ver representa a essência da fina arte de contar histórias.

Aliás, muito me intriga que hoje em dia os contos tenham meio que “saído de moda” no Brasil. Até mais ou menos a década de 1980 os contos eram bastante apreciados pelos leitores e representavam expressiva parcela do mercado editorial. De lá para cá, a impressão que tenho é que o interesse pelo conto vem caindo drasticamente. O que é de se admirar, considerando a tendência à simplificação progressiva nos escritos de ficção. Talvez o conto não agrade tanto hoje em dia porque, apesar de ser curto em número de páginas, geralmente obriga o leitor a um esforço interpretativo muito maior que em um romance. Será que é por isso?

De todo modo, felizmente eu nunca fui de seguir modas, então pude apreciar bastante a leitura desses 47 “Contos Cruéis”. O aprendizado maior que tive foi que talvez o segredo de um bom conto esteja mais no ritmo da narrativa que em outros elementos, tais como tema, estrutura narrativa ou vocabulário. Difícil mesmo é definir o que seria um bom ritmo! O melhor exemplo que encontrei no livro é o clássico conto de Rubem Fonseca, “Feliz Ano Novo”, que bem pode simbolizar a proposta da antologia como um todo. Essa deve ter sido a quarta ou quinta vez que li esse conto, e a cada vez acho melhor escrito!

É importante destacar também a reflexão sobre a relevância de uma literatura focada na violência. Diz o organizador, na apresentação ao livro:

“O Brasil se tornou mais violento nos últimos tempos. A nossa pobreza pede soluções que não chegam. As nossas cidades choram cotidianamente os seus mortos. O escritor vai fazer o quê? Pintar as ruas de risos e rosas?”

Será que a função da literatura é retratar e denunciar as mazelas da sociedade? Ou deveria aspirar sugerir novos caminhos? A catarse é a motivação máxima da literatura? Ou seria a transcendência?

Sem pretender fornecer respostas prontas, acho válido que todo escritor – e leitor – faça a si mesmo essas perguntas, de vez em quando.

E viva a Literatura Brasileira!




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ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058

 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Sem Olhos em Gaza - Aldous Huxley


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A MARCA – Fabio Shiva

Um intrigante conto de mistério e assassinato que tem como pano de fundo a saga dos Anunnaki... “A MARCA” foi originalmente publicada em “REDRUM – Contos de Crime e Morte” (Caligo Editora, 2014), sendo um dos sete contos selecionados para a antologia. Em 2016 a história foi republicada no livro duplo de contos “Labirinto Circular / Isso Tudo É Muito Raro”, de Fabio Shiva (Cogito Editora). E agora está disponível aqui. Boa leitura!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5825862

 

sábado, 18 de março de 2017

O PAPALAGUI


Esplêndido! Uma obra tocante e inesquecível.

Tuiávii, chefe da tribo Tiavéa, na Polinésia, tinha muita curiosidade em conhecer as terras do “Papalagui”, palavra que em Samoa designa o Branco, o Estrangeiro. E foi assim que integrou um grupo teatral popular e acabou visitando muitas cidades na Europa, e conhecendo profundamente os hábitos, costumes e valores do Papalagui. De volta à sua terra, redigiu uma série de apontamentos com o que aprendeu, com o propósito de partir em uma expedição missionária, a fim de alertar seu povo sobre os perigos de abraçar a cultura do homem branco. O alemão Erich Scheurmann, que na época visitava as ilhas dos mares do sul, tornou-se amigo de Tuiávii e traduziu seus escritos, tornando o texto acessível aos ocidentais.

Esta é a versão oficial. Há quem diga que o texto todo foi inventado pelo próprio Scheurmann. Eu, pessoalmente, tendo a dar crédito a essa possibilidade. Pois os textos desse pequeno grande livro revelam um conhecimento tão profundo da sociedade e da psicologia ocidental, que sugerem uma sabedoria e uma percepção verdadeiramente sobre-humanas. Por outro lado, caso seja Scheurmann o autor, o valor do texto não é diminuído, muito pelo contrário: há aqui a inegável marca de uma grande obra de arte!

Seja como for, esse é um livro que merece ser lido com o espírito aberto e profunda atenção. A civilização tecnológica errou feio o caminho, em algum ponto de sua trajetória. Talvez ainda dê tempo de consertar isso. E o grande valor de “O Papalagui” está em apontar algumas das causas mais evidentes para esse mau passo do mundo moderno, que tornou os homens cegos para o Grande Espírito. Essa é, em minha opinião, a origem de todo o erro.

TRECHOS DO LIVRO:

"Os Brancos corromperam os missionários para que eles nos enganassem com as palavras do Grande Espírito. Pois o metal redondo e o papel pesado, que eles chamam dinheiro, é que são a verdadeira divindade dos Brancos."

"Existe aí uma grande injustiça que o Papalagui não nota, nem quer pensar sobre isto para não ser obrigado a reconhecer que ela existe. Nem todos que têm muito dinheiro trabalham muito."

"Ó irmãos, acreditai no que vos digo: ocultei-me atrás dos pensamentos do Papalagui e vi o que ele quer, como se o iluminasse o sol do meio-dia. Destruindo, onde quer que vá as coisas do Grande Espírito, o Papalagui com sua própria força pretende dar vida, novamente, àquilo que matou, convencendo-se assim de que é o Grande Espírito porque faz muitas coisas."

"Mostra que é muito pobre aquele que precisa de coisas em quantidade porque, assim, prova que lhe faltam as coisas do Grande Espírito." 

"Ó irmãos, que é que pensais do homem cuja cabana é tão grande que dá para uma aldeia inteira e que não oferece ao viajante o seu teto por uma noite? Que é que pensais do homem que tem um cacho de bananas nas mãos e não dá uma só fruta a quem, faminto, ávido, lhe pede? Vejo a zanga nos vossos olhos, o maior desprezo nos vossos lábios. E vede que é isso que o Papalagui faz a todo momento. E mesmo que tenha cem esteiras nenhuma dá ao que nenhuma tem. Pelo contrário, acusa-o e censura-o por não ter. Pode estar com a cabana cheia de mantimentos até o alto, muito mais do que ele e sua aiga comem em 100 anos. Não sairá à procura dos que não têm o que comer, dos que estão pálidos de fome. E há muitos Papalaguis pálidos de fome. A palmeira deixa cair as folhas e frutos que estão maduros. Mas o Papalagui vive como se a palmeira quisesse retê-los. ‘São meus! Não os tereis! Jamais deles comereis!’ Mas como faria então a palmeira para dar novos frutos? A palmeira é muito mais sábia do que o Papalagui."

“Assim, todas as coisas prodigiosas do Papalagui têm um lado fraco, oculto em algum lugar; máquina não há que não precise de quem a vigie, de quem a toque; máquina não há que não contenha uma secreta maldição. A mão poderosa da máquina faz tudo, sim, mas enquanto trabalha, vai devorando o amor que encerram as coisas que fazemos com as mãos. De que me serve uma canoa, uma clava talhada pela máquina? Uma máquina é um ente frio, sem sangue, que não sabe falar do seu trabalho, que não sorri quando acaba; que não pode mostrá-lo ao pai e à mãe para que eles também fiquem contentes. Como é que poderei amar minha tanoa se uma máquina é capaz de fazer outra igual a qualquer momento, sem o meu trabalho? Aí está a grande maldição da máquina: é que o Papalagui já não ama coisa alguma porque a máquina pode refazer tudo, a qualquer momento. Para que a máquina lhe dê os seus prodígios sem amor, o homem deve alimentá-la com o próprio coração.”

“O Grande Espírito é que determina, sozinho, as forças do céu e da terra; é quem as reparte como lhe parece melhor. Não cabe ao homem fazer isso; não é impunemente que o Branco tenta transformar-se em peixe, ave, cavalo e verme. E com isso ganha muito menos do que confessa. Quando atravesso uma aldeia a cavalo, vou mais depressa, é claro; mas quando caminho a pé, vejo mais coisas e o meu amigo pode me convidar para entrar em sua cabana. Raramente se ganha de verdade quando se chega mais rapidamente ao que se procura. Mas o Papalagui está sempre querendo chegar depressa ao seu objetivo. Quase todas as suas máquinas servem, apenas, para chegar rápido a certa meta. Mas, quando chega, outra meta o atrai. O Papalagui desse modo vive sem jamais repousar; e cada vez mais desaprende o que é andar, passear, caminhar alegremente em direção ao que não procuramos mas vem ao nosso encontro.”

“Quem lê o jornal não precisa ir a Apolima, Manono, Saváii [ilhas de Samoa] para saber o que os amigos fazem, pensam, comemoram. Pode-se ficar deitado, calmamente, na esteira que os muitos papéis contam tudo.”


“Mas não é só isto que faz do jornal uma coisa tão ruim para a nossa mente, quando nos conta o que aconteceu; é que ele também nos diz o que devemos pensar a respeito disso e daquilo, a respeito do nosso chefe, dos chefes de outros países, de tudo quanto ocorre, de tudo que a gente faz. O jornal gostaria de fazer que todos os homens pensassem igual; o jornal é inimigo da minha cabeça, é inimigo do que eu penso.”

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MANIFESTO – Mensageiros do Vento

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

sexta-feira, 17 de março de 2017

O FALECIDO MATTIA PASCAL – Luigi Pirandello


Muito bom esse livro, obra que diverte e faz pensar. Dentre todos os autores laureados com o Prêmio Nobel de Literatura que li até hoje, Pirandello é certamente o que tem a veia cômica mais aflorada.

É o próprio Mattia Pascal quem narra sua singular história: “já morri, sim, duas vezes, mas a primeira, por engano, e a segunda... irão saber.”

Dado como morto por todos que o conheciam, Mattia tem a oportunidade de começar uma nova vida, sob uma nova identidade. Mas longe de ser a liberdade que ele almejava, a condição de “morto” acaba se tornando uma nova e insuspeitada escravidão... o que não o impede de desenvolver uma série de reflexões sobre a vida e a morte.

Muito interessante é o recurso utilizado pelo autor de apresentar, através do personagem Paleari, alguns pensamentos bem profundos sobre o sentido da vida, mas que são recebidos pelo um tanto obtuso Mattia Pascal com deboche e ironia, como se não passassem de devaneios de um velho gagá. Recurso arriscado, que em mãos menos hábeis talvez não surtisse o efeito desejado, de fazer pensar sem cometer o grave crime de querer “dar aula” ao leitor, além de deixar a questão em aberto, possibilitando novas reflexões.

Eu, pessoalmente, obtive dessa leitura um ganho a mais, pois ao contrário da maioria das pessoas, também já morri, não apenas duas, mas três vezes, graças a um problema na parte elétrica do coração que obrigou os médicos a forçarem uma parada e a reinicialização das batidas cardíacas por meio de choque elétrico. Trata-se de um procedimento perigoso e de êxito incerto, mas felizmente dei um “restart” no coração por três vezes e ainda estou aqui. Foram momentos difíceis para mim e para minha família, mas hoje posso dizer que foram algumas das melhores coisas que já me aconteceram, por me proporcionar, assim como ao caro Mattia, a possibilidade de vivenciar de forma mais próxima a morte e, assim, obter uma visão privilegiada sobre a preciosa dádiva da vida. Foi, aliás, graças a esses episódios que passei a me chamar Fabio Shiva (tendo nascido Fabio Lopes Barretto), como explico no poema “3 X CTI”:

Fabio Lopes morreu.
Fabio Barretto morreu.
Fabio sem nome morreu.

Antes eles do que eu!


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MANIFESTO – Mensageiros do Vento

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

sábado, 11 de março de 2017

Resenha Poética


Resenha dos livros:
* A URBE A GENTE E OS OUTROS - Nadia Virginia
* ALÉM DO PENSAR - Carla LaForgia
* O ENIGMA DA FLOR - Ivan de Almeida

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ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058

domingo, 5 de março de 2017

ONDE EXISTE LUZ – Paramahansa Yogananda


Dizer que este é um dos melhores livros que li na vida é pouco!

“Onde Existe Luz” é uma seleção de ensinamentos de Paramahansa Yogananda, extraídos de suas palestras, de outros escritos e até de conversas testemunhadas pelos discípulos. São pequenos textos, de um ou dois parágrafos cada, organizados de acordo com o tema em 13 capítulos, dentre os quais se destacam na contracapa do livro:

  • Descobrir a sabedoria e a força necessárias para tomar decisões na vida
  • O antídoto contra o estresse, a preocupação e o medo
  • Transformar em êxito os fracassos
  • Segurança em um mundo incerto
  • Aperfeiçoar os relacionamentos humanos
  • O poder das afirmações e da oração
  • Compreender a morte
  • Desenvolver um relacionamento pessoal com Deus

Depois da “Autobiografia de um Iogue”, considero este livro o mais indicado para discípulos iniciantes e pessoas desejosas de conhecer um pouco mais sobre os ensinamentos de Yogananda. Pela própria estrutura do livro, o leitor tem a impressão de estar conversando diretamente com o guru, e não poucas vezes recebendo o ensinamento necessário no momento exato! Posso dizer por experiência própria que é uma experiência maravilhosa e muito estimulante espiritualmente.

Li este livro pela primeira vez há mais de dez anos. Depois de ter lido o livro do início ao fim, passei a utilizá-lo como uma espécie de “linha direta” com o guru, abrindo o livro ao acaso quando estava precisando de orientação sobre algum problema específico. Não me lembro de ter ficado nenhuma vez sem a esperada resposta (se fui capaz ou não de colocar em prática os ensinamentos, é outra história). Esse hábito foi muito importante para me ajudar a estabelecer um canal de comunicação com Yogananda, que venho buscando tornar cada vez mais efetivo desde então.

Algum tempo depois dei o meu exemplar de presente (como costumo fazer com os meus livros mais preciosos). E alguns meses atrás, ao passar meu enésimo exemplar da “Autobiografia de um Iogue” para uma querida amiga, recebi das mãos dela justamente “Onde Existe Luz”. Raras vezes saboreei tanto a (re)leitura de um livro! Li com vagar, me detendo a cada parágrafo, refletindo e sempre me admirando com a colossal sabedoria desse grande ser de luz.

Recomendo com todo meu coração aos buscadores sinceros de todas as religiões, que encontrarão neste livro inúmeras lições práticas sobre como aprofundar seu conhecimento de Deus.

“(...) não pode haver trevas onde existe luz.” – Paramahansa Yogananda


Jai Guru!


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MANIFESTO – Mensageiros do Vento

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine que esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590


sexta-feira, 3 de março de 2017

MAIGRET E O FANTASMA – Georges Simenon


O comissário Jules Maigret está praticamente de virote quando é chamado para resolver um caso difícil: o inspetor Lognon sofreu um atentado durante a madrugada e está entre a vida e a morte. O caso é especialmente árduo porque Maigret conhece e simpatiza com a vítima, o pobre inspetor conhecido entre os policiais como Sem Sorte...

Como sempre, é um deleite ler um livro escrito por Simenon. A história flui que é uma beleza, sem esforço, como se estivesse se escrevendo sozinha. Admiro muito a maneira como ele retrata um personagem em poucas linhas, através de pequenos detalhes que nos fazem vislumbrar sua personalidade e sua psicologia oculta. Mas sobretudo sou fã da maneira como ele descreve os cenários, com inimitável maestria, sempre interagindo com o mundo humano, de tal forma que os próprios cenários também parecem vivos!

Nesse livro tive um vislumbre do famoso método-da-falta-de-método de Maigret: creio que ele é principalmente um grande intuitivo, que capta no ar as coisas... Por isso os livros de Simenon não se prestam muito ao velho jogo de descobrir o assassino, mas o leitor nem se dá conta disso, de tão envolvido que fica no climão insuperável das aventuras de Maigret!


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A MARCA – Fabio Shiva

Um intrigante conto de mistério e assassinato que tem como pano de fundo a saga dos Anunnaki... “A MARCA” foi originalmente publicada em “REDRUM – Contos de Crime e Morte” (Caligo Editora, 2014), sendo um dos sete contos selecionados para a antologia. Em 2016 a história foi republicada no livro duplo de contos “Labirinto Circular / Isso Tudo É Muito Raro”, de Fabio Shiva (Cogito Editora). E agora está disponível aqui. Boa leitura!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5825862
 



domingo, 26 de fevereiro de 2017

UM JEITO TRANQUILO DE MATAR – Chester Himes


Há tempos eu queria ler um livro de Chester Himes, um dos autores “clássicos” de romances policiais que eu ainda não conhecia. O que primeiro chama a atenção nesse autor é a sua biografia: aos 19 anos, foi condenado a 25 anos de prisão por assalto a mão armada. Começou a escrever na prisão. Só esse fato já desperta a curiosidade: um autor de livros policiais que passou boa parte da vida detrás das grades certamente deve ter coisas interessantes a dizer.

Contudo as primeiras páginas de “Um Jeito Tranquilo de Matar” não são muito promissoras: o livro começa com uma briga de bar com direito a facadas, machadas e tiros, com um nível de violência tão elevado que eu pelo menos achei que a história seria uma mera sucessão brucutu de pancadarias sem sentido... ledo engano!

Pois logo depois desse susto inicial começamos a perceber as intenções e a profundidade da visão do autor. A violência não é gratuita: tem o propósito de denunciar as agressões muito mais severas do racismo. É muito raro encontrar um romance policial com algum tipo de mensagem social. E o melhor de tudo é que a história em si funciona e atende a todos os critérios de um bom romance policial.

A reflexão extra que essa leitura me proporcionou foi o do quanto livros policiais, de suspense, terror etc. têm o propósito de chocar o leitor. Algumas cenas desse livro são fortes ainda hoje, que dirá em 1959 nos Estados Unidos, quando a obra foi publicada! Por outro lado, essa meta de chocar o leitor me parece cada vez mais difícil de ser atingida no mundo cada vez mais louco em que vivemos!


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ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:

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